Minha carreira - Primer RH

Precisamos nos desconectar

22 de agosto de 2019

Nos achamos tão livres com as telas de nossos celulares, tablets e computadores, globalizando ideias aos dois hemisférios. O mundo inteiro está na palma das nossas mãos. O que claramente não é verdade; nunca estivemos tão sozinhos quanto agora.

Mas qual é o principal motivo de a conectividade nos manter tão presos a ela? Claro, nos informamos através dela, realizamos serviços e acrescentamos valor à pontos importantes de nossas vidas, como saúde e educação mas, chegamos ao ponto de não sabermos mais como distinguir a informação e o conhecimento da socialização. Pois, se você não estiver conectado, você não faz parte do mundo em que vive.

Acontece que temos a ilusão de ficarmos conectados todo o dia criando a sensação de sermos partes ativas da sociedade em que vivemos.

Acabamos convencidos da força de nossas opiniões, da capacidade de influência, mas acima de tudo do interesse despertado nos outros. Há uma grande dose de narcisismo em uma cultura que se orgulha de preencher o feed com toda sua vida. É a maneira encontrada pela contemporaneidade de recriar o sentimento de pertencimento. Ou você é visto ou não é ninguém. Com tantas conexões no mundo virtual, acabamos perdendo as conexões no mundo real.

E com isso, vem junto a falta de privacidade. Quando os âmbitos pessoais do outro começam e os meus terminam? Somos constantemente invadidos por spam em emails e ligações de números desconhecidos sobre coisas que nem fazia ideia que havia se inscrito (até porque não se inscreveu). Colocamos senhas em nossos dispositivos para que ninguém saiba o quão secreta deve ser sua vida, ao mesmo tempo que a colocamos em exposição redes sociais afora.

Há tanta informação que acabamos desinformados.

Se pesquisar por alguma coisa qualquer, três minutos depois e você já acha que tem uma doença terminal. Vamos com calma. Até porque o dia de hoje mal começou e já esbravejamos aos quatro cantos que não temos tempo para nada. Claro que há tempo. Não precisamos nos alimentar da necessidade doentia de agradar a todos. Não precisamos deste ou daquele aplicativo de conversa para dizermos algo que podemos dizer olho no olho. Estamos perdendo momentos incríveis para gravá-los, como se isso realmente fizesse com que durassem mais. Fazemos uso da tecnologia, não temos que nos tornar escravos dela.

Em tempos de lucratividade non-stop, não paramos para nada. Vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Dinheiro, dinheiro e mais dinheiro. Estamos trocando qualquer minuto do clichê de paz e tranquilidade que mal sobra tempo para o cafezinho do meio-dia. Ser multi-tarefas cansa nossos corpos e mentes. Uma coisa de cada vez, tudo no seu tempo, por favor. Estamos exaustos. Exaustos e correndo. E a má notícia é que continuaremos exaustos e correndo, porque exaustos-e-correndo virou a condição humana dessa época. E já percebemos que essa condição humana um corpo humano não aguenta.*

Merecemos cada minuto, cada segundo desses instantes tão curtos e escassos de paz e tranquilidade ou a nossa mente, já em deterioração, piorará ainda mais. Precisamos cuidar de nós mesmos, livres de narcisismo e egoísmo, desarmados de julgamentos e deixando de lado as máscaras sufocantes que se tornaram as tóxicas redes sociais.

Por hoje, só por hoje, deixemos o celular de lado. Que caminhemos, corramos, leiamos e aproveitamos os momentos ao ar livre. A vida não é apenas uma tela com a luz azul ligada. Que paremos de encarar as telas de nossos celulares como se fossem espelhos antes que vejamos algo que não gostaríamos. Por hoje, só por hoje, precisamos nos desconectar.


Trecho da coluna “Exaustos-e-correndo-e-dopados” da jornalista e escritora Eliane Brum.

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